domingo, 1 de março de 2009

Notas sobre o Smart Capitalism

Em entrevista concedida à jornalista Graça Magalhães-Ruether, correspondente do jornal O Globo na Alemanha [publicada nesse Domingo, 01/03/2009], há um momento bem interessante no qual o entrevistado, o economista alemão Reinhard Schmidt, emite a seguinte opinião:

Graça Magalhães-Ruether: "Na sua opinião, a estatização parcial dos bancos americanos significa o fim do capitalismo nos EUA?"

Reinhardt Schmidt: "Não devemos de forma alguma contar com um fim do capitalismo. Isso não será possível porque o capitalismo é o único sistema que pode sobreviver. Mas, por outro lado, o capitalismo nunca mais voltará a ser como antes. Nós acabamos de descobrir que o capitalismo puro, sem nenhuma interferência do Estado, não é mais possível".

Comentário: "O capitalismo nunca mais voltará a ser como antes . Nós acabamos de descobrir que o capitalismo puro, sem nenhuma interferência do Estado, não é mais possível."
O ilustre economista descobriu o óbvio. Pelo menos desde 1930 que os próprios capitalistas sabem da importância da regulação estatal para, pelo menos, evitar as crises sistêmicas do capitalismo. Isso sem falar dos teóricos da economia que falam disso há tempo.
Quanto à primeira frase: "o capitalismo nunca voltará a ser como antes", concordamos plenamente. Penso apenas que o economista deveria ter se aprofundado mais e qualificado o que pensa sobre o "novo capitalismo". Nós o chamamos de capitalismo inteligente (smart capitalism), pelas razões expostas no artigo anterior.

Sobre a continuidade do sistema econômico, veja a seguinte declaração de Ferreira Gullar, publicado na Coluna do Ancelmo de Góis, n'O globo, nesse domingo:

"O capitalismo não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como nos regimes socialistas. Em qualquer canto, há um cara inventando uma empresinha. São multidões em busca de dinheiro! Impossível deter engrenagem tão eficiente".

Aqui não há o que comentar, a não ser para acrescentar que foi a ineficiência uma das razões para o colapso das economias socialistas.


Na mesma coluna há outra citação de Gullar:

"O capitalismo vai imperar, pois segue a lógica da Natureza. É brutal, feroz, amoral. Não demonstra piedade por nada nem ninguém. Mas oferece uma série de benefícios, de riquezas."

Em relação à citação acima, penso que deve ser entendida da perspectiva de um certo marxismo que assimila a sociedade à natureza. Em uma palavra, de uma perspectiva positivista (Durkheim, Comte, etc) do marxismo ... essa sim, em vertiginoso declínio: Não existem "leis históricas" como, supostamente, existiriam leis naturais.

Olhando de conjunto, porém, podemos deduzir que para F. Gullar, o capitalismo irá se manter, da mesma forma como sempre foi: 'brutal', 'feroz', 'amoral', conforme suas palavras.

Penso que esta é uma visão que não percebe as pequenas mudanças, as microtendências que a longo prazo influenciarão uma mudança substancial do capitalismo em direção a um sistema econômico mais inteligente, mais soft, que poderíamos chamar de smart capitalism.

O que você pensa?