sábado, 31 de janeiro de 2009

Novo rumo: ações iniciais do governo americano

Dia 31 de Janeiro de 2009. Tem 10 dias que Mr. Obama se tornou Presidente dos EUA. Muito trabalho foi realizado e várias decisões já foram tomadas nesse ínfimo tempo.

Em relação à política externa há de se mencionar o fechamento de Guantánamo, uma medida altamente simbólica que mostra a nova abordagem dos EUA no que se refere à política de segurança nacional e de combate ao terrorismo a ser encetada por esse país e que consiste, basicamente, em preservar os direitos humanos fundamentais e o procedimento democrático nas ações pertinentes. Representa uma guinada quanto à administração de G. Bush e o novo enfoque foi confirmado pela Embaixadora americana na ONU, Susan Rice.
- Os EUA querem fazer da ONU o centro de um esforço coletivo para promover o respeito às leis internacionais de direitos humanos, disse a Embaixadora.

Em relação à política interna, a questão mais importante foi a aprovação do pacote de 825 bilhões pela Câmara dos Deputados. Espera-se que o mesmo aconteça no Senado. A economia dos EUA está em recessão, mostrando que a crise financeira é muito profunda. Os analistas se dividem em relação ao volume de recursos necessários para que a economia saia do buraco. Para uns, 825 bilhões é necessário e suficiente. Para outros, necessário, mas insuficiente. Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia em 2008, defende essa última posição. Só o futuro dirá. No entanto, quem conhece o estudo “The aftermacth of financial crises”[As conseqüências das crises financeiras] - dos professores Carmen Reinhart, da Universidade Maryland e Kenneth Rogoff, de Harvard - sabem que entre seus efeitos estão a escalada do desemprego e a desvalorização do mercados de ativos econômicos.

Pois bem ... se o pacote for aprovado, o governo americano terá a oportunidade para começar a combater imediatamente um dos piores efeitos da crise, o desemprego. Espera-se que mais de três milhões de empregos sejam criados e/ou recuperados, o que permitirá fazer cessar “o desastre sem fim das famílias trabalhadoras da América” (Obama) que a recessão as fez mergulhar.

Assim, avaliamos que nesses 10 dias de governo, o Presidente dos EUA agiu no limite máximo de suas forças para:

1) Definir um perfil próprio de gestão política, procurando moldá-lo segundo o figurino dos valores da democracia, da transparência e dos direitos humanos;
2) Mostrar-se, também, um governo eficaz e uma liderança idônea e confiável para levar tranqüilidade às famílias, protegendo-as do efeito mais nocivo da atual crise financeira;
3) Com essas ações conseguiu, nesse pouco tempo, manter acesa a esperança gerada pela incrível campanha eleitoral;

Portanto, este blog faz um balanço muito positivo dos primeiros 10 dias de governo do Sr. Barack Obama.

P.S. Um obstáculo político é possível vislumbrar no caminho do governo democrata: O Partido Republicano não quer contribuir um milímetro para que Barack Obama se transforme em novo Roosevelt, por motivos óbvios. Isso pode vir a ser um problema!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bob Fernandes entrevista Mangabeira Unger

O Ministro de Assuntos Estratégicos do Governo brasileiro, Sr. Mangabeira Unger, concedeu interessante entrevista ao jornalista Bob Fernandes, publicado no Terra magazine
http://possedeobama.blog.terra.com.br/2009/01/19/mangabeira/

19 de janeiro de 2009
Mangabeira Unger: Brasil tem chance histórica de parceria com os EUA

Bob Fernandes - Direto de Washington DC (EUA)

(...)

Terra Magazine - Antes de qualquer coisa, uma curiosidade, acho que natural, de todos que sabem que o senhor foi professor de Barack Obama em Harvard. Quem era esse aluno que a partir de hoje preside o país mais poderoso da Terra?
Roberto Magabeira Unger - O presidente eleito é um homem excepcionalmente inteligente. Muito sereno como todos estão vendo. Mas, ao mesmo tempo, muito aberto. É uma pessoa muito diferente de mim. Eu tenho interesse em doutrinas e uma dialética de contraste. Ele exemplifica muito a atitude americana de descontar o envelope doutrinário e as esperanças radicais e buscar o resíduo pragmático imediato.
Terra Magazine - Ele era aluno de que cadeira?
RMU- Ele, entre outras cadeiras, teve um desempenho notável em um curso que eu dei sob o título “Democracia realizada”, que, aliás, depois veio a ser o título de um dos meus livros. Agora, eu acho que é um equívoco focar só no novo governo do novo presidente.
Terra Magazine - O senhor conhece os atores, conhece os personagens dessa história que tá se desenrolando, a partir de hoje do ponto de vista prático… há mais de um ano no governo do presidente Lula, o senhor esteve conversando com alguém da equipe de transição de Obama, não sei exatamente com quem foi, então te pergunto: o que se pode esperar e o que se pode querer?
RMU - Eu vejo uma imensa oportunidade para o Brasil de construir com os Estados Unidos um tipo de engajamento crítico que nunca teve até agora.
Terra Magazine - O que seria um “engajamento crítico”?
RMU - Uma ação que ajude a transformar tanto Estados Unidos quanto o Brasil. Há muito tempo eu sustento que o Brasil é o país do mundo mais parecido com os Estados Unidos, embora essa semelhança não seja reconhecida em qualquer um dos dois países.
Pela origem, também, de europeus, pela miscigenação…Comecemos pelos fatos elementares. São dois países de tamanho quase idêntico. Multiétnicos. Formados pela mesma base de povoamento europeu. São os dois países mais desiguais; Estados Unidos entre os países ricos, e Brasil dos países grandes em desenvolvimento. Paradoxalmente, nesses dois países muito desiguais, a maioria das pessoas comuns continua a entender que tudo é possível. São países que fervilham de vitalidade e energia. Muitas vezes considerada dispersa. Os Estados Unidos estão na busca de uma seqüela ao projeto de produção do século passado, um projeto que atenda os interesses da maioria trabalhadora, inclusive e sobretudo da maioria trabalhadora branca.
Certo…Um dos pressupostos do longo período de ascendência conservadora dos Estados Unidos nas últimas décadas foi o malogro do Partido Democrata em construir uma alternativa dessa ordem. E nós no Brasil estamos a busca de um novo modelo de desenvolvimento que transforme a ampliação de oportunidades econômicas e educativas no próprio motor do crescimento. São duas buscas convergentes.
Terra Magazine - E o que, do ponto de vista prático, poderia ser feito?
RGU - O que eu cito que deveríamos fazer é propor aos Estados Unidos um conjunto de iniciativas exemplares a serviço da ampliação de oportunidades para aprender, para trabalhar, para produzir. Deixando de lado as variações ideológicas e os vocabulários doutrinários e focar as inovação concretas, exemplares e sugestivas.
Terra Magazine - Nos dê exemplos objetivos…
RMU - Eu vejo três áreas especialmente propícias para a esse propósito. Primeiro, os agrocombustíveis, porque o Brasil e os Estados Unidos são os dois países mais importantes nessa área. E dois focos nesse trabalho. Primeiro, organizar o mercado mundial de agrocombustíveis e transformá-los em verdadeiros commodities, porque eles ainda não são. O segundo foco é trabalhar nas bases científicas, nos instrumentos tecnológicos dos agrocombustíveis, sobretudo os chamados de segunda geração.
Em segundo lugar……a segunda área propícia é a educação. São dois países muito grandes, muito desiguais e de regime federativo. Em países com essas três características há sempre o problema de reconciliar a questão local das escolas nos estados e municípios com padrões nacionais de qualidade. A qualidade da educação que uma criança recebe não deve depender do acaso do lugar onde ela nasce. Nós aqui no Brasil estamos tentando construir um procedimento para associar os três níveis da federação em alguns conjuntos, portanto um federalismo cooperativo, para socorrer e consertar redes escolares locais defeituosas que estão abaixo dos patamares mínimos aceitáveis. Se necessário faremos sozinhos, mas se pudermos fazer com os Estados Unidos, é muito melhor.
Terra Magazine - Ok… e a terceira área?
RMU - A terceira área é a economia. O soerguimento das pequenas e médias empresas para levá-las mais próximas da fronteira tecnológica e das práticas avançadas. Esse é o setor mais importante das duas nossas economias. E agora a qualificação dessas empresas adquire uma importância extraordinária no contexto da crise financeira internacional. O que eu sinto é que nós deveríamos propor isso aos Estados Unidos.
Terra Magazine - Já há alguma perspectiva disso?
Já comecei a discutir isso…
Terra Magazine - Com quem e como foi sua conversa?
RMU - …eu tenho uma convicção de que o presidente eleito estará muito aberto a isso. A minha idéia é que o hemisfério ocidental deve ser um grande espaço de experimentalismo democrático. E isso a nós nos interessa e interessa aos Estados Unidos escapar da idéia que tem que escolher entre retirar-se do mundo ou impor ao mundo uma fórmula institucional excludente. Agora há uma segunda frente que podemos abrir com os Estados Unidos que converge com essa das iniciativas institucionais exemplares.
Terra Magazine - Qual seria?
RMU - É a construção de respostas à crise financeira internacional. Até agora o debate do mundo, dentro e fora do G20, tem sido dominado por duas preocupações relativamente superficiais: a necessidade de regular os mercados financeiros e a necessidade de adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas. Há três temas subjacentes que são muito mais importantes. E sem enfrentá-los, o que fizermos com os temas superficiais não funcionará.
Terra Magazine - Obama em trabalho voluntário
RGU - Quais são estes três temas?
Primeiro, enfrentar e superar os desequilíbrios estruturais na economia mundial. Entre os países superavitários em comércio e poupança, a começar pela China, e os países deficitários em comércio e poupança a começar pelos Estados Unidos. Segundo: entender a regulação dos mercados financeiros como apenas a ponta de lança de uma reconstrução das relações entre as finanças e a produção. Do jeito que se organizam hoje no mundo as economias de mercado a produção em larga medida se “autofinancia” com base nos lucros retidos das empresas. Para que serve então todo aquele dinheiro que corre nas bolsas?
Para que serviu até aqui?Teoricamente é para financiar a produção. Na realidade em geral não é. Então nos tempos de bonança as finanças pouco servem e quando explode uma bolha especulativa ameaça a economia real. Quer dizer, o sistema financeiro é indiferente para o bem e eficaz para o mal. Isso não tem que ser assim. A crise é oportunidade para reorganizar.
Terra Magazine - E o terceiro tema?
RMU - O terceiro tema subjacente é a redistribuição da renda e da riqueza. Todo mundo admira nos Estados Unidos a construção na segunda metade do século XX de um mercado de consumo de massa. Mas como pode haver um mercado de consumo em massa sem a redistribuição da renda e da riqueza?
Que inexiste…Pelo contrário. Nos Estados Unidos houve uma violenta concentração de renda. Uma das maneiras que explica essa mágica é a supervalorização fictícia dos imóveis. É a principal fonte de poupança dos americanos e serviu como lastro para uma alavancagem exuberante das pessoas físicas. A democratização da propriedade substituída por uma democratização fantasmagórica de crédito. Agora que isso…
Acabou…Se tornou menos viável… É preciso enfrentar o tema que foi suprimido ou negado lá atrás no século XX.
Certo…Então, vamos juntos com as iniciativas exemplares, a qual me referi antes, construir junto com os Estados Unidos uma resposta mais séria. E aí todos os contenciosos pré-existentes se tornarão menos suscetíveis
Terra Magazine - Ministro, do ponto de vista objetivo, a conversa com equipe de transição foi com quem? O que se tratou?
RMU - Não…. isso eu não vou falar agora.
Terra Magazine - … mas essa conversa já existiu……
RMU - já, mas não vou dizer com quem eu falei e com quem eu não falei…
… mas existiram as conversas……eu estive em Washington e conversei com muitas pessoas. O presidente eleito (Barack Obama) tomou corretamente a posição de que os Estados Unidos têm um presidente de cada vez. E que os membros do novo governo só devem dialogar depois de estarem no governo.
Terra Magazine - Uma última pergunta…
RMU - Eu tenho uma posição peculiar porque eu conheço os Estados Unidos e tenho relações pessoais com muitas destas pessoas. Eu queria fazer uma observação sobre a trajetória do governo de Obama.
Terra Magazine - Claro…
RMU - Eles estão mais abertos a um questionamento e a um auto-questionamento do que estiveram desde a década de 30. Agora, se nós examinarmos as idéias dos colaboradores do presidente eleito, são pessoas muito experientes, muito inteligentes. Na maioria, muito mundanas e de idéias bastante convencionais. Com a notável exceção do setor de energia. Se nós procurássemos prever o rumo do governo…
Terra Magazine - Qual seria?
RMU - Seria um projeto muito bem definido em seis pontos. Primeiro, regular os mercados financeiros. Segundo, adotar as políticas monetárias e fiscais expancionistas. Terceiro, usar o poder do governo para aumentar a cobertura dos seguros privados de saúde. Quarto, fomentar as energias renováveis e assumir uma posição mais avançada na problemática da mudança do clima. Quinto, respeitar mais o multilateralismo das relações internacionais. Sexto, tirar as tropas do Iraque e colocá-las no Afeganistão.
Terra Magazine - E…
RMU - Pode parecer muita coisa em relação ao que havia antes. Mas é muito pouco em comparação ao que espera o país. A minha previsão é que o presidente penderá entre o horizonte programático circunscrito a seus colaboradores e as demandas teimosas e rebeldes de um país inconformado embaixo, que, como você está vendo ai, fervilha. O resultado dessa oscilação, desse movimento pendular, depende de um lado da política, de outro lado do pensamento. A crítica expõe a pobreza das idéias no mundo. Não basta querer reorientar, é preciso saber como.
Terra Magazine - Seu ex-aluno tem horizonte para tanto?
RMU - Ele, como eu disse, não é um ideólogo, um doutrinador. Mas ele é uma pessoa de bastante…Praticidade……bastante abertura. De muita intuição na captação das alternativas. O problema é que elas surjam. É como diz no Rei Lear, nós podemos convocar os espíritos, mas talvez eles não venham (risos)…. Vamos lá. Agora, a imaginação tem que vir em socorro da prática transformadora.

Uma boa notícia

Muitos amigos me solicitam cópia de um artigo de Direito de Família no qual sustento que o princípio da unidade familiar (art. 226, da Constituição Federal) pode amparar decisão judicial autorizando viagem de menor ao exterior, junto com um dos genitores, quando há negativa do outro genitor, o qual foi escrito no início do ano e que teve cópias passadas de mão em mão no ano de 2008. Bem, hoje recebi uma notícia boa que compartilho com todos. Esse artigo foi publicado no site da DireitoNET, cujo endereço transcrevo abaixo, podendo, a partir de agora, ser mais facilmente acessado. Boa leitura!!!

http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/4899/O-principio-de-unidade-familiar-como-fundamento-para-autorizacao-judicial-para-viagem-ao-exterior-de-menor-quando-nao-ha-autorizacao-do-genitor

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

20 de Janeiro de 2009: Um Dia Histórico

Mr. Barack Hussein Obama é, a partir de hoje, o 44º Presidente dos Estados Unidos da América. Desde que emergiu na cena política americana ele fez uma carreira meteórica. Ninguém que tenha observado os passos iniciais de sua trajetória vislumbraria esse destino. Nenhuma análise sociológica, ou de qualquer natureza, seria capaz de prever sua vitoriosa ascensão, impondo derrotas às forças políticas firmemente estabelecidas no cenário sócio-político dos EUA. Explicar esse verdadeiro fenômeno, mesmo pós-factum, se constituirá um desafio para os analistas de todos os matizes.
Além de, em si mesmo, se constituir um fenômeno político americano, seu surgimento desencadeou inúmeros fenômenos espalhados pelo mundo. É como se fosse um Big Bang político, gerando um movimento de expansão de diversas partes, que gravitam em torno de sua imagem, de suas idéias e da esperança que suscita. A expectativa gerada por seu governo, ao redor do mundo, é um caso muito sério e, em si mesmo, desafia exlicações de historiadores, psicólogos, cientistas sociais.
Li recentemente o livro "A origem de meus sonhos", escrito pelo Presidente após sugestão feita por uma editora quando ele se tornou Diretor da Revista de Direito de Harvard. O livro passa muitas informações sobre sua família - tanto a americana quanto a africana. No livro pode-se perceber ser ele uma pessoa extremamente equilibrada, capaz de conviver de forma amigável com diferentes valores e pontos de vista e, sobretudo, um detalhe me chamou a atenção: quando diante de questões complexas ele desafia ao máximo sua auto-reflexão.
Penso que essas características ainda estão presentes, de forma ainda mais elaborada, em sua personalidade e em sua forma de agir. Veja-se o caso de seu gabinete, formado por pessoas de diferentes ideologias ou com formas diferentes de abordagem dos problemas. Parece que o que o orienta é um sentimento profundo de conciliação e de re-conciliação. E isso nos permite compreender porque 84% dos americanos estão confiantes no sucesso de seu governo.
Todos sabemos como é a política e temos nossas idéias sobre o exercício do poder. Somos mais ou menos escaldados com os políticos e suas promessas, mas nunca podemos perder a esperança num mundo melhor. Há muito tempo não sentia renovar em mim esse sentimento de esperança. E foi através de um personagem político de um país distante que voltei a sentir isso, da mesma forma que, imagino, aconteceu com milhões de pessoas em todo mundo.

E tudo isso é mais do que suficiente para desejar que o governo de Mr. Obama tenha absoluto sucesso!!!

Felicidades ao Presidente, sua família e a esse incrível povo americano que teve a coragem de dar essa guinada em sua sociedade.

Interesante artigo de Eduardo Galeano

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

Eduardo Galeano: "Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?"

Eduardo Galeano (*)
Este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latinoamericanas que Israel assessorou.

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.A chamada “comunidade internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antisemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.

(*) Texto publicado originalmente no jornal Brecha. (Tradução: Katarina Peixoto)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Faltam dez dias para a posse do Sr. Obama

Os EUA mergulham na crise econômica. O presidente eleito discursou à nação, exortanto o Congresso a aprovar o mais rápido possível o plano de recuperação da economia americana. No discurso de ontem há as seguintes passagens:

Os políticos gastaram o dinheiro dos contribuintes “sem bom senso ou disciplina, e muito frequentemente se preocuparam em marcar pontos políticos em vez de resolver problemas”.

-Em vez de políticos ficarem repartindo dinheiro por trás de um véu de segredos, as decisões sobre onde investiremos serão exibidas de forma transparente.

Parecem palavras dirigidas aos políticos brasileiros.

A frase ‘repartindo dinheiro por trás de um véu de segredos’ deveria entrar para a história como um tipo de denúncia hiperrealista de uma das atividades corriqueiras dos políticos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sarkozy "...no meio do redemoinho"

No post "Sarkozy, a diplomacia francesa e o conflito em Gaza", publicado às 11:30h, tecemos elogios ao presidente e à diplomacia franceses pela ação consequente - correta, rápida, eficiente - no conflito na Faixa de Gaza.
Ao abrirmos a internet agora, mais ou menos às 16hs, vemos que um plano 'franco-egípcio' parece estar sendo costurado e, pelas informações correntes, tem chances de ser aceito pelas partes em conflito.
Como se vê, o presidente Sarkozy está "...no meio do redemoinho" (para lembrar Guimarães Rosa), e parece estar próximo de um resultado altamente significativo para todo o mundo.
Estamos torcendo para que obtenha êxito... suas atitudes, bem como a da diplomacia francesa nesse caso, deveriam servir de exemplo para muitos países.

Vivre la France !!!!

Lula e a diplomacia brasileira

A posição do presidente Lula em relação ao conflito na Faixa de Gaza está em sintonia com o seu partido, o PT, que classificou a ação israelense de 'terrorismo de Estado'. O presidente brasileiro se manifestou rápida e claramente sobre isso. Também a diplomacia brasileira tem se manifestado em sintonia com as posições do presidente e tentado articular a comunidade internacional para forçar Israel a suspender a invasão em Gaza.
O único comentário que tenho a fazer é o seguinte: nossa diplomacia poderia ser mais rápida. Tenho a impressão que ela funciona de forma muito lenta. É só comparar com a diplomacia francesa. Os jornais brasileiros dão mais destaque à diplomacia francesa do que a brasileira. Isso só é possível porque a primeira (francesa) produz mais notícias do que a segunda (brasileira).
O Sr. Celso Amorim disse, em Portugal, que o Brasil tem uma grande interlocução internacional e iria, ajudar a encontrar uma solução. Se isso é verdade, e eu acredito que sim, então era para estar agindo junto com a diplomacia francesa, americana, etc. E não é o que está acontecendo.
Mais rapidez e eficiência, talvez, sejam características que faltam à diplomacia brasileira.

Sarkozy, a diplomacia da França e o conflito em Gaza

Quem acompanha pelo menos um pouco a evolução do conflito em Gaza deve ter percebido a movimentação do Presidente Nicolas Sarkozy e da diplomacia francesa. O presidente viaja, conversa com o presidente da Síria, com o líder do Fatah, etc. Seus embaixadores conversam daqui e dali. Enfim, diante da apatia da comunidade internacional, a diplomacia francesa e seu presidente estão em constante articulação internacional para ajudarem na resolução imediata do conflito e estão de parabéns. É evidente o esforço de Sarkozy para conseguir o cessar-fogo imediato em Gaza.
Sarkoky é um político de direita, mas está agindo como um grande humanista. Por sua atuação altamente relevante é, nesses primeiros dias de 2009, o Homem do Ano. E a diplomacia francesa, na pessoa do chanceler Kouchner, também está de parabéns.

Vivre la France!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

2009 - Um mal início na política internacional

Estamos de volta. Queria ter ficado mais tempo de férias, mas não deu. Principalmente devido à tragédia da invasão da Faixa de Gaza por Israel. Alguns comentários:
1) O governo de Israel mostrou-se um governo oportunista (a invasão é eleitoralmente interessante para o grupo político que por ela decidiu);
2) O governo mostrou-se cruel (os ataques não pouparam civis, principalmente crianças, mulheres, etc.). Há notícia do uso de bomba de fósforo, que mantém o sofrimento das pessoas que são atingidas por esse produto - uma espécie de queimação contínua. Isso é proibido pela Convenção de Genebra.
3) Mostrou-se um governo que "não está nem aí" e pouco se importa com os apelos da comunidade internacional no sentido de suspender a invasão;
4) Mostrou-se um governo 'desumano', que não dá a mínima para a questão humanitária, deixando civis sem água, comida, assistência médica, moradias, etc.;
5) Mostrou-se um governo que replica com os palestinos métodos análogos aos que os nazistas adotaram, justamente, com o povo judeu;
Tudo isso significa uma coisa: terrorismo de Estado!
E, apesar disso, contou com o apóio incondicional do governo de G. Busch que, inclusive, impediu que a ONU votasse uma resolução contra os ataques israelenses.
A imagem jurídica que me vem à cabeça em relação à ação do Estado israelense é a que configura "exercício arbitrário das próprias razões". Acho que não existe essa figura em Direito Internacional. Mas, é elucidativa. Está na hora de a comunidade internacional obrigar Israel a uma política de contenção.
E, essa é uma questão que o governo democrata americano, do Sr. Barack Obama, não pode tergiversar, como fez até agora em relação ao conflito árabe-israelense, devendo, junto com outros países, impor a Israel a adoção de uma nova política.

Essa questão não é a que gostaríamos de iniciar o ano. Todavia, não podemos colocar a cabeça dentro do buraco e fingir que nada de importante está acontecendo.

PS. O governo brasileiro está de parabéns pela posição firme que adotou. Não sou vinculado a nenhum partido. Portanto, estou livre para parabenizar, também, o Partido dos Trabalhadores que se posicionou claramente contra a invasão israelense. Qual é a posição dos outros partidos?