sábado, 8 de novembro de 2008

Mercado, Sociedade e Regulação (III)

Mas será, essa, a melhor solução? Ou essa é uma solução possível no momento, mas ninguém garante que será duradoura? Estou entre os que acreditam que essa solução será momentânea, vigorando até a próxima crise, quando virão soluções novamente semelhantes e assim ... . Meu descrédito nessa solução advém do fato de acreditar que a solução dada resulta de uma grande incompreensão da própria crise e em particular de sua instituição central: o mercado.
Lembrando Karl Polanyi (A Grande Transformação), penso que a crise ora instalada evidencia o seguinte: o mercado na sociedade capitalista é uma instituição que cresceu na medida mesmo que submetia a sociedade aos seus ditames; e seu papel nessa sociedade é, basicamente, um papel de destruição dos vínculos sociais existentes (como um moinho satânico), para a realização de sua natureza. Nessa linha de raciocínio, penso que a solução duradoura para tais crises seria não uma intervenção pura e simples, mas uma regulação muito maior do que os políticos estão dispostos a adotar. Seria quase como uma domesticação do mercado para impedir que ele se transforme num monstro devorador de tudo.
O grande desafio é encontrar a equação adequada para que essa regulação exerça seu objetivo, isto é, arrefecer de forma duradoura os ânimos destruidores dessa instituição sem impedir o exercício de seu papel ativo na dinâmica econômica, de forma a não contribuir para fomentar a criação de outro monstro, o Leviatã que tudo suprime, principalmente, a liberdade.

Nota - Esta é a terceira e última parte de matéria em homenagem a K. Polanyi, que escreveu A Grande Transformação. Leia os posts (I) e (II).

Mercado, Sociedade, Regulação (II)

Os liberais tiveram de admitir, no entanto, a necessidade da intervenção e acabou por prevalecer a perspectiva intervencionista não só nos EUA, mas nos vários países. Passou vigorar a idéia, inclusive, de que como a crise era global, a solução (intervenção) deveria ser global. Aparentemente, os líderes mundiais desprezaram o princípio liberal e sucumbiram ao intervencionismo estatal sobre o mercado.
No auge da crise, ainda, operadores de mercado passaram a consumir avidamente os escritos de Marx, em particular, O Capital, numa tentativa de compreender o que estava acontecendo. Centenas de milhares de exemplares desse clássico da literatura socialista foram comprados, embora não possamos saber se foram efetivamente lidos dada a proverbial dificuldade de compreensão do mesmo, principalmente do 1º volume.
Portanto, em que pese essa crise ter suscitado, também, uma mistura de sinais ideológicos - liberais ortodoxos aceitam a intervenção estatal no mercado; operadores (sempre crédulos nas virtudes do capitalismo) lêem O Capital, originalmente escrito para dar suporte à derrocada do mesmo – nos parece que vai se impondo aos poucos, uma solução keynesiana, tendo como referência aquilo que se viveu na década de 30, logo após a grande crise de 1929.

Nota - Post em homenagem a K. Polanyi que escreveu um dos cem livros mais influentes do século XX: A Grande Transformação. Essa é a parte II, a qual se seguirá a parte III.

Mercado, Sociedade, Regulação (I)

A crise econômica global colocou em debate as relações entre o Estado e o Mercado em suas mútuas interconexões, suscitando, também, a busca de soluções baseadas nas grandes teorias econômicas clássicas. Nos EUA, a crise financeira em sua fase mais aguda, logo após a falência do Lemann Brothers no rastro da crise imobiliária, quando grandes instituições financeiras corriam o risco de seguir pelo mesmo caminho, a solução encontrada pelo governo americano foi costurar com o Congresso um plano de resgate daquelas instituições, significando a injeção de bilhões de dólares no mercado com o intuito de conter o derretimento do valor das ações de grandes empresas; O mesmo aconteceu em diferentes países pelo mundo afora – tanto na Europa, quanto na Ásia e no Oriente médio.
O plano de resgate de Bush (republicano) foi rejeitado, num primeiro momento, pelos parlamentares ligados ao próprio Partido Republicano para quem aquela intervenção contrariava o princípio do liberalismo clássico da primazia do mercado. Quer dizer, os conservadores consideravam que se deveria deixar com o mercado a solução do problema que tinha sido criado pelo próprio mercado, segundo a máxima do liberalismo clássico para o qual a mão invisível do mercado acabaria por solucionar os problemas por ele enfrentados, não cabendo ao Estado intervir com esse intuito. Segundo o credo republicano-liberal, inclusive, essa intervenção significaria, pura e simplesmente, socialismo.

Nota - Esse post é uma homenagem ao grande economista Karl Polanyi. Hoje foi publicado a parte I. Serão publicadas as partes II e III.