quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Imperdível

Estou lendo avidamente o livro "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros", de Antonio Risério. Pretendo, posteriormente, fazer um comentário mais abrangente do mesmo. Por ora adianto para os amigos desse Blog que é um livro muito bom. Não consegui largá-lo desde que o tive em minhas mãos.

É muito bem informado sobre as diferenças entre o segregacionismo racial dos EUA, sua origem e seus desdobramentos atuais e a hibridização (mestiçagem) da cultura brasileira; com base nos argumentos que são levantados critica vigorosamente a política dos movimentos negros no Brasil que pretende retirar "o mulato" da cena etnodemográfica brasileira e transformar o Brasil em um país bicolor (Black and White), como foi feito nos EUA.

O curioso é que enquanto isso é tentado em nosso país, cresce nos EUA o movimento que pretende fazer com que os "mulatos" americanos tenham reconhecido sua origem tanto negra quanto branca. É sabido que nos EUA basta ter uma única gota de sangue negro para que alguém seja considerado negro, mesmo que seja fenotipicamente branco ou que a maioria de seus ascendentes sejam brancos. Nesse sentido, surge a curiosa figura social do "passing", pessoa com características fenotípicas de pessoas brancas mas que possuem ascendência negra. Para evitar esse reconhecimento, fazem tudo para acentuar as características brancas (através de cirurgias, etc.) e, mais importante, procuram se afastar de tudo o que venha a lembrar essa ascendência.

A análise de Risério procura demonstrar que jamais seremos um país bicolor, que a sociedade brasileira se vê misturada, não é segregacionista, valoriza e se orgulha dessa mistura e que, mesmo sabendo que existe o racismo, combate-o firmemente.

É imperdível e recomendo sua leitura, sugerindo um futuro debate sobre ele nesse blog.

5 comentários:

Anônimo disse...

Fala pai. Transformar o Brasil em um país bicolor é um crime contra o nosso país e a sua História e formação. É claro que a ascendência africana é tradicionalmente escondida e ignorada, e o movimento negro brasileiro é muito importante para que não nos esqueçamos dela. Mas é necessário ver também que a influência da África pertence a todos os brasileiros, e teve sua importância assim como a européia para a constituição do nosso povo.
Araço, Lucas.

Anônimo disse...

Olá, Lucas!
Concordo inteiramente que é um crime querer transformar o Brasil num país bicolor.
Mas, felizmente, isso não vai acontecer. Continuaremos misturados e o racialismo não vai se impor.
Um abraço, filho.

Anônimo disse...

Muito interessante esse viés que vc apontou. É impossível negarmos nossa miscigenação. E, isso não significa de modo algum fecharmos os olhos para o movimento negro em nosso país e, reconhecermos a sua importância, bem como a das ações afirmativas pelas quais ele luta para implementá-las, no sentido de garantir igualdades de oportunidades e tratamento, além da compensação de perdas causadas pela discriminação e marginalização. Mas,temos que ficar atentos que dadas discriminações e marginalizações são expressivas não só por motivos raciais, mas étnicos; religiosos; de gênero e etc..Tenho o maior orgulho de a minha família ter constituída de brancos, negros, pardos; daí a beleza de nosso povo.

Anônimo disse...

Olá Nelma!
Você disse:
"E, isso não significa de modo algum fecharmos os olhos para o movimento negro em nosso país e, reconhecermos a sua importância"

Registro que, segundo Risério, o movimento negro que transportar para o Brasil a maneira de classificar dos EUA, que não reconhece a mestiçagem. Nesse sentido, não se trata de "fecharmos os olhos" mas, ao contrário, de o movimento negro "abrir os olhos" para a singularidade de nossa realidade.

2)"bem como a das ações afirmativas pelas quais ele luta para implementá-las, no sentido de garantir igualdades de oportunidades e tratamento."

Registro, também, que podemos depreender da argumentação de Risério,que a política de ações afirmativas deveriam ser endereçadas a todos os pobres e não somente aos negros, pois criaria discriminação insustentável em relação aos pobres, mestiços ou brancos, etc.

3)"além da compensação de perdas causadas pela discriminação e marginalização".

Novo registro para dizer que, segundo Risério, a questão da reparação envolve uma análise bem complexa. Só para se ter uma idéia: Havia, durante a escravidão, pretos livres que possuíam escravos. Logo, se houvesse reparação ela poderia atingir também pessoas negras que adotaram o mesmo mal que abominamos. Outra questão: a escravidão era generalizada no reino do Congo, na África, de onde vieram grande arte dos escravos para o Brasil.A aristocracia negra nesse reino praticava o trafico de escravos negros. Assim, se formos pensar em reparação, como responsabilizaríamos os negros africanos que implementaram o comércio de escravos?

Enfim, apenas duas observações para relativizar o tipo de abordagem que vc adotou e que são objeto de análise crítica no livro "A Utopia Brasileira e os movimentos negros", de Antonio Risério.
Merece ser lido com atenção para não ficarmos repetindo clichês sobre o que, ainda segundo Risério, acabou por se constituir na nova "história oficial brasileira"
Um abraço.

Anônimo disse...

Joberto, primeiro quero lhe agradecer por suas observações e críticas, entretanto, reconheço que não tenha conseguido ser inteligível em meu pensamento. Acho importante seu questionamento em minhas declarações, pois ao apontar as ações afirmativas, não quis apontá-las como solução unívoca para a solução de várias discriminações e exclusões sociais que alguns estratos sociais vivenciam; o caso em questão a historicidade dos negros brasileiros. Elas trazem polêmica; mas, quero só pontuar que quando as abordei, foi no sentido de ressaltar a correção de desigualdades sociais a um grupo específico histórico e culturalmente discriminado cujas características principais seriam:
a)ter um cunho compensatório /reparador;
b)é uma política focalizada cuja a meta é univerzalizante (a questão da focalização nesta política no foco abordado, mas no sentido de ser universalizante para que posteriormente as oportunidades sociais seja para todos) e;
c)tem seu período de aplicação estipulado previamente.
Mesmo sabendo que deixei muitos pontos em aberto,sinalizo que, achei que estava subentendido que falamos sobre um fração social, que tem uma condição socioeconômica baixa ou abaixo da linha da pobreza; quero terminar acrescentando que aprendi a trazer o meu olhar, sobre as questões sociais, usando um parâmetro que é o de “decifrar as desigualdades sociais – de classes – em seus recortes de gênero, raça, etnia, religião, nacionalidade, meio ambiente, etc.. Mas decifrar, também as formas de resistência e rebeldia com que são vivenciadas pelos sujeitos sociais.” (Iamamoto, 2005:114).
Um pequeno protesto: a resposta de um e-mail que lhe enviei em 27/11/08, sobre “Política de Ação Afirmativa”, que esperava obtê-la por e-mail.