quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Análise do filme "A primeira noite de um homem"

Um momento lazer desse blog: indico que todos amigos assistam nesse fim de semana ao filme "A primeira noite de um homem", cuja análise adianto a seguir. Garanto ser uma ótima opção.

Vários aspectos chamam a atenção nesse clássico do cinema. O filme capta o espírito da época (década de 60) ao mostrar a evolução do personagem Benjamin (Ben) Braddock em direção à sua libertação pessoal numa sociedade altamente repressora. De fato, há uma cobrança social muito grande sobre o personagem. Uma vez formado, as pessoas a sua volta lhe cobram que trilhe o caminho do sucesso profissional e pessoal (casando-se com uma moça de família rica e bem sucedida). E essas cobranças tornam sua vida angustiante.

A primeira oportunidade que aparece na sucessão de seu processo de libertação e de encontro consigo mesmo ocorre quando é seduzido por Mrs. Robinson. É, também, a primeira experiência sexual de Ben, repleta de cobranças, exigências e imposições. Mrs. Robinson como adúltera é altamente impositiva e manipuladora, mas é através dessa experiência que ele descobre o que não quer e encontra o que quer. De quebra, nessa parte do filme o diretor faz crítica demolidora à família americana, onde impera as aparências, o desamor e o formalismo.

Mas a libertação do personagem das amarras sociais - e a afirmação de sua liberdade pessoal - é um processo alimentado pela energia cuja fonte é o sentimento de amor que nutre por Elaine, filha de Mrs. Robinson. Esse amor aos poucos vai se manifestando como livre de todas as imposições sociais. Na verdade, ele se confirma apesar delas.

O filme, de 1967, traz as marcas do momento em que foi produzido: jovens lutando contra entraves sociais e pela auto-afirmação, mesmo que isso implique ruptura dramática com o passado. Alguns sinais do filme são coerentes com essa visão e dignos de nota. Berkeley, por exemplo, a Universidade americana onde começou o movimento estudantil[1] que deságua em 1968, aparece como uma referência à liberdade e ao amor livre. No filme, é em Berkeley que Ben e Elaine começam a viver, por si mesmos, seus sentimentos, suas dúvidas, seus planos e suas decepções, enfim a sua liberdade para amar (e nesse sentido a ficção antecipa a realidade). Mas essa experiência é interrompida pelo pai de Elaine que a tira de Berkeley para afastar-se de Ben e casar-se com um comportado estudante de medicina. Como se verá, era tarde demais: a rebelião da liberdade já estava em curso!

Benjamin vai atrás de seu amor. Resgata Elaine do passado e fustiga as pessoas com a cruz. É também com a cruz com que o personagem prende a porta da Igreja retendo as pessoas (o passado?) no interior dela e impedindo a perseguição ao casal. Observa-se que a cruz não tem importância religiosa para o personagem. É um mero instrumento usado de forma prática para garantir a fuga deles para a liberdade. Há, nessa cena, uma dessacralização da cruz, significando também uma ruptura do personagem com o peso da religião. O amor, para eles, é mais forte do que a religião.

Família, Sociedade, Profissão, Trabalho, Futuro e Religião (não necessariamente nessa ordem), essas instituições sociais, uma a uma, são demolidas no filme, enquanto se afirma a liberdade individual. Depois, Ben e Elaine, em fuga dentro do ônibus parecem se perguntar: e agora, o que faremos? Como diz um crítico, “depois de tudo, da liberação de todas as amarras, do amor livre, do sexo sem culpa, da independência com relação a um mundo cheio de regras e limitações, Foi essa a pergunta feita a toda geração sessentista ao fim de “A Primeira Noite de um Homem”. E continua nos sendo feita até hoje.


Nota 1) Sobre Berkeley, diz John Searle: “as rebeliões estudantis tiveram início nos "Free Speech Movement" --Movimento pela Liberdade de Expressão-- na Universidade de Berkeley (Califórnia), em outubro de 1964”. Portanto, em 1967, a insurgência estudantil de Berkeley já era conhecida. Acrescenta Searle: “Os protestos irromperam em Berkeley em 1964, mas tiveram origem no ano de 1963, e estavam relacionados com os movimentos de direitos civis dos negros. O movimento dos estudantes de Berkeley é uma conseqüência do movimento de direitos civis”.

Como se vê, também aí estão as raizes "espirituais" da eleição do futuro presidente dos EUA.

2 comentários:

Anônimo disse...


Desde que vc fez um a crítica àquela música do Renato Russo (a que fala da história do Santo Cristo de Barasília, lembra?), vi que suas análises eram muito promissoras. Admiro essa capacidade associativa, a visão de totalidade e o conhecimento daquilo que se passa e que passou pelo mundo. Esse último (adquirido com árduo e prazeiroso trabalho)lhe dá condições de transformar excelentes filmes, como "A primeira noite de um homem" em algo ainda mais brilhante, pois vc acaba oferecendo a possibilidade que o vejamos com outros olhos. Muito boa crítica, muito bom blog, muito boa disposição de trabalhar e fazer coisas acontecerem. Parabéns! Tania

Anônimo disse...

Tânia,

Estava faltando sua presença nesse blog. Muito obrigado por suas palavras e pelo incentivo. Vindo de você, que admiro muito, fico mais animado ainda.

Um abraço