Nesse romance, a personagem possui “um ponto de vista especifico sobre o mundo e sobre si mesma”, ponto de vista este que reflete “uma posição racional e valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante”. Portanto a personagem de Dostoiévski tem uma consciência e uma autoconsciência, que permite-lhe a última palavra sobre o mundo e sobre ela mesma.
Por isso, “a personagem dostoievskiana ... é um discurso pleno, uma voz pura” e todo o trabalho de Dostoiévski consiste em “submeter as suas personagens visando a obter delas a palavra de sua autoconsciência” (p.53). A ênfase principal da obra de Dostoiévski consiste “na luta contra a coisificação humana, das relações humanas e de todos os valores humanos no capitalismo ... Com imensa perspicácia Dostoiévski conseguiu perceber a penetração dessa desvalorização coisificante do homem em todos os poros da vida de sua época e nos próprios fundamentos do pensamento humano (...) assim, a nova posição artística do autor em relação ao herói no romance polifônico de Dostoiévski é uma posição dialógica seriamente aplicada e concretizada até o fim, que afirma a autonomia, a liberdade interna, a falta de acabamento e de solução do herói” (p.63).
Ou seja, Dostoiévski, para Bakhtin, entendia que a maneira de evitar essa coisificação em seus romances era atribuir às personagens a plena expressão de suas vozes e de suas visões de mundo, criando, a partir daí, um grande diálogo entre essas vozes plenivalentes.
Daí que “a orientação dialógica, co-participante, é a única que leva a sério a palavra do outro e é capaz de focalizá-la enquanto posição racional ou enquanto um outro ponto de vista. Somente sob uma orientação dialógica interna minha palavra se encontra na mais intima relação com a palavra do outro mas sem se fundir com ela, sem absorvê-la nem absorver seu valor, ou seja, conserva inteiramente a sua autonomia enquanto palavra”
Voltaremos ao assunto para concluir a visão de Bakhtin sobre o romance em Dostoiévski. Quero apenas ressaltar a importância que o diálogo assume em sua visão, não apenas como processo de troca de palavras ou enunciados entre interlocutores numa conversa. Mas aplicável a qualquer fenômeno no qual duas ou mais vozes entram em contato., correspondendo tanto às vozes de dois indivíduos envolvidos em um diálogo aberto, a um autor e a uma personagem dentro do ‘discurso novelístico’ e até às vozes de duas posições conflitivas no funcionamento interno, intrapsicológico (Wertsch ). A noção de diálogo de Bakhtin, fundamenta suas colocações em uma grande variedade de temas: estética, filosofia, e psicologia.
O princípio do texto polifônico - o dialogismo - é o princípio que deve orientar este blog, uma vez que
"A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar de um diálogo: interrogar, escutar, responder, concordar, etc. Neste diálogo o homem participa todo e com toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas ações. Ele se põe todo na palavra, e esta palavra entra no tecido dialógico da existência humana, no simpósio universal" (Bakhtin)

2 comentários:
ANALISANDO O FILME ESCRITORES DA LIBERDADE DENTRO DE UMA PERSPECTIVA ORGANIZACIONAL
Depois de se formar em Direito, Erin se torna professora, contrariando seu pai e marido.
No início, idealiza uma classe ideal e que tudo sairia com ela tinha planejado e sonhado. Neste momento ela demonstra ingenuidade, timidez, curiosidade e determinação.
Sua vocação para o magistério vai se construindo conforme os desafios que ela encontra entre os alunos e ao lidar com a burocracia e o conservadorismo dos funcionários do sistema pedagógico da escola. Erin é diferente dos demais professores da instituição que trabalha, pois ela tem ousadia, garra, determinação, toma iniciativa e vai a luta para conseguir seus objetivos, que era o de ensinar literatura.
Os diversos obstáculos próprios de qualquer sistema escolar fazem com que ela se sinta desafiada a ir além do currículo escolar e das paredes da escola.
O sistema educacional onde Erin atua é um sistema burocrático baseado no mecanicismo, onde a hierarquia é marcante nas relações entre a Direção e os professores.
A racionalidade funcional exigida a todos os professores daquela instituição, isto é as pessoas e seus cargos se encaixavam num planejamento rígido, mas Erin não se enquadrou neste tipo de racionalidade ela adotou a racionalidade substancial, que é aquela onde as pessoas são encorajadas a determinar se aquilo que estão fazendo é apropriado e então se ajustar apropriadamente as ações.
A professora Erin toma sua tarefa como um grande desafio: educar e civilizar aquela turma problemática e estigmatizada como “os sem-futuro” por todos. Desenvolve atividades significativas para a turma, por exemplo, visitando o museu do holocausto, possibilitando aos jovens saber os efeitos traumáticos da ideologia da “grande gangue” nazista, que provocou a 2ª. Guerra Mundial e o holocausto, e também reconhecer as semelhanças com suas “pequenas gangues” da escola.
A solução adotada pela professora para ensinar é possível em nossa organização educacional, pois, o método empregado, foi o de levar o aluno a entender que a aprendizagem é algo que desencadeia saberes reais, que não se aprende para fazer provas e que o conhecimento adquirido é algo desconectado da realidade.
Ela entregou para cada aluno um caderno (diário) para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares e sociais. Também, instigou-os a ler livros como "O Diário de Anne Frank" com o propósito de despertar alguma identificação e empatia, ainda que os personagens vivam em épocas diferentes; a partir de eventuais encontros imaginários cada aluno poderia desenvolver uma atitude especial de tolerância para com o “outro”. Com isso ela criou um elo entre o conhecimento e os alunos.
Cada professor faz diferença no seu ato de ensinar. O ensino regular visa levar os alunos aprenderem os conteúdos programados pelos currículos. Contudo, não se pode ensinar sem incluir também uma mudança educativa. Um ensino sem educação para o pensar é vazio de sentido prático e existencial. Uma educação sem aprendizagem dos conteúdos também é vazia e tende a degenerar em retórica moral e emocional. Ensinar e educar implica em responsabilidades: pedagógica, política e moral, dentro e fora da escola; implica, ainda, na responsabilidade dos professores em civilizar a nova geração que irá povoar o mundo.
Nós, professores e professoras, devemos assistir ao filme “Escritores da Liberdade” por várias razões: para que possamos inovar o ato de ensinar adequado à realidade cultural dos alunos; para que, além de ensinar, também possamos adotar uma atitude de pesquisa-ação com os grupos que se formam em sala de aula e na escola, quase sempre atraídos pela semelhança formando grupos narcísicos, cujo sintoma visível é a intolerância para com os demais; para que aprendamos a acolher e contextualizar as situações de vida dos alunos com as de outras vidas relatadas pela história da humanidade – que, através de um diário ou redação qualquer eles aprendam a significar suas histórias com outras histórias; para que os professores se empenhem mais e mais em ler literatura, porque só podemos cobrar dos alunos esse hábito se nós também nos habituamos a ler ; para que os professores façam autocrítica sobre a paixão têm pelo trabalho com os alunos não deve necessariamente implicar a sua desatenção para com os seus próximos: marido, esposa, filhos, etc.
E para nós pós-graduando em Gestão, para que reflitamos sobre as formas de se gestar uma escola de forma democrática e participativa onde cada elemento é um membro importante do processo de construção da instituição. Izabel, Sonia Severino, Luzineth, Fatinha, Fabiano e Rozany, Deumarina e Margareth.
Olá para vcs(Izabel, Sonia Severino, Luzineth, Fatinha, Fabiano e Rozany, Deumarina e Margareth),
Eu tinha visto o que escreveram antes e em relação ao que tinham escrito esse texto ficou, simplesmente, sensacional. Tudo a ver com o que todos trabalhamos em sala. Voces gostaram da forma como trabalhamos esse filme?
Parabéns pelo texto e obrigado pela visita ao blog.
joberto
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