O livro Problemas da Poética de Dostoiévski, de Mikhail Bakhtin, sem dúvida, é um grande livro. A análise nele contida constitui, também, a construção de uma visão original da linguagem desse pensador russo. Nessa concepção original da linguagem, o princípio do dialogismo emerge como ponto central. o autor observa que nos romances de Dostoiévski não há apenas a voz e a consciência do autor, mas múltiplas vozes e consciências independentes e autônomas que formam uma ‘autêntica polifonia de vozes plenivalentes’: múltiplas vozes, plenas de valor, que mantém uma relação de igualdade com as outras vozes. Para Bakhtin isso caracteriza o romance polifônico;
Nesse romance, a personagem possui “um ponto de vista especifico sobre o mundo e sobre si mesma”, ponto de vista este que reflete “uma posição racional e valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante”. Portanto a personagem de Dostoiévski tem uma consciência e uma autoconsciência, que permite-lhe a última palavra sobre o mundo e sobre ela mesma.
Por isso, “a personagem dostoievskiana ... é um discurso pleno, uma voz pura” e todo o trabalho de Dostoiévski consiste em “submeter as suas personagens visando a obter delas a palavra de sua autoconsciência” (p.53). A ênfase principal da obra de Dostoiévski consiste “na luta contra a coisificação humana, das relações humanas e de todos os valores humanos no capitalismo ... Com imensa perspicácia Dostoiévski conseguiu perceber a penetração dessa desvalorização coisificante do homem em todos os poros da vida de sua época e nos próprios fundamentos do pensamento humano (...) assim, a nova posição artística do autor em relação ao herói no romance polifônico de Dostoiévski é uma posição dialógica seriamente aplicada e concretizada até o fim, que afirma a autonomia, a liberdade interna, a falta de acabamento e de solução do herói” (p.63).
Ou seja, Dostoiévski, para Bakhtin, entendia que a maneira de evitar essa coisificação em seus romances era atribuir às personagens a plena expressão de suas vozes e de suas visões de mundo, criando, a partir daí, um grande diálogo entre essas vozes plenivalentes.
Daí que “a orientação dialógica, co-participante, é a única que leva a sério a palavra do outro e é capaz de focalizá-la enquanto posição racional ou enquanto um outro ponto de vista. Somente sob uma orientação dialógica interna minha palavra se encontra na mais intima relação com a palavra do outro mas sem se fundir com ela, sem absorvê-la nem absorver seu valor, ou seja, conserva inteiramente a sua autonomia enquanto palavra”
Voltaremos ao assunto para concluir a visão de Bakhtin sobre o romance em Dostoiévski. Quero apenas ressaltar a importância que o diálogo assume em sua visão, não apenas como processo de troca de palavras ou enunciados entre interlocutores numa conversa. Mas aplicável a qualquer fenômeno no qual duas ou mais vozes entram em contato., correspondendo tanto às vozes de dois indivíduos envolvidos em um diálogo aberto, a um autor e a uma personagem dentro do ‘discurso novelístico’ e até às vozes de duas posições conflitivas no funcionamento interno, intrapsicológico (Wertsch ). A noção de diálogo de Bakhtin, fundamenta suas colocações em uma grande variedade de temas: estética, filosofia, e psicologia.
O princípio do texto polifônico - o dialogismo - é o princípio que deve orientar este blog, uma vez que
"A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar de um diálogo: interrogar, escutar, responder, concordar, etc. Neste diálogo o homem participa todo e com toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas ações. Ele se põe todo na palavra, e esta palavra entra no tecido dialógico da existência humana, no simpósio universal" (Bakhtin)